A situação de Paulo Henrique para o ano de 2024 ainda é incerta. Ficará no Vasco? Voltará para o Atlético-MG? Ou irá para outro clube? Apesar do futuro indefinido, o lateral-direito, que se destacou no final do Campeonato Brasileiro, tem apenas uma certeza: ele encerra o ano “um pouco vascaíno”.
– Desde a primeira semana me senti em casa, muito identificado. Fui abraçado pela torcida, ouvir meu nome ser gritado em São Januário foi muito especial. Desenvolvi um grande carinho, tenho vários itens do Vasco em casa, foi um ano em que fui muito feliz. Depois de vestir a camisa do Vasco, não tem como sair daqui sem ser um pouco vascaíno – afirmou Paulo Henrique em entrevista ao ge.
Contratado por empréstimo junto ao Galo no começo desta temporada, o jogador de 27 anos enfrentou dificuldades em 2023. Foi titular em apenas um jogo nas primeiras 25 rodadas do Brasileirão, e teve que buscar auxílio para suportar o momento difícil.
Para isso, contou com o apoio da esposa Patricia, que o acompanhou desde o início difícil no Sul do país, com passagens por Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. Juntos há quatro anos, foi ela quem o aconselhou a buscar ajuda psicológica no Vasco.
– Aconteceram muitas coisas ao longo do ano e, conversando com minha esposa, ela achou que seria bom eu procurar (a psicóloga), devido a tudo que estava acontecendo. Eu já havia feito consultas no Atlético-MG. Tínhamos restrição quanto a isso, mas percebi que é muito importante. No futebol, boa parte é psicológica, mental. Ela me passou exercícios, informações para eu enfrentar esse momento difícil e estar preparado quando surgisse a oportunidade – revelou.
E a oportunidade surgiu na 26ª rodada do Brasileirão. Com a chegada de Ramón Díaz, Paulo Henrique foi titular em nove jogos e correspondeu. O treinador argentino foi fundamental na mudança de prestígio do jogador no Vasco. Isso ocorreu com muitas cobranças.
– Após a partida contra o Botafogo, na qual marquei o gol, ele veio e disse: “Não se acomode, não relaxe, mantenha a firmeza”. Ele cobrou isso da equipe e de mim. O futebol tem seus altos e baixos, eu estava em um bom momento e ele continuou exigindo – relatou o lateral.
Diante da coleção de camisas, algumas de clubes pelos quais passou e outras trocadas com amigos de outras equipes ao longo da carreira, o lateral olhava para duas de maneira especial. Ambas do Vasco: a que usou no gol marcado contra o Botafogo e a da assistência contra o Red Bull Bragantino, no jogo decisivo.
– Me pediram a camisa do jogo contra o Botafogo e eu disse: “Não posso”. Ao sair do jogo, já escrevi na etiqueta “gol” para saber que era a camisa do gol e, não importa quem peça, ela será guardada. Nem ela nem a do último jogo, contra o Red Bull Bragantino, ninguém chega perto. Intocáveis – ressaltou o camisa 96 do Vasco.
Paulo Henrique recentemente foi sondado por dois clubes da Major League Soccer (MLS). Também recebeu propostas de clubes da Série A do Brasileirão. O Galo só considera a venda. Alexandre Mattos, novo diretor de futebol do Vasco, ainda não se reuniu com o jogador e o clube mineiro.
O lateral recebeu a equipe de reportagem da Globo em seu apartamento no Recreio na última quinta-feira. Às vezes interrompido por Jake, um dos gatos do casal, Paulo Henrique fez um balanço da temporada. Leia a entrevista a seguir:
ge: O que permanece desta temporada?
Paulo Henrique: o sentimento de alívio e de dever cumprido diante do que o campeonato nos apresentou. Claro que não desejaríamos lutar contra o rebaixamento, mas foram as circunstâncias.
Troca de treinadores e oportunidades no final
Foram três treinadores, cada um com suas virtudes. Todos me deram confiança, as oportunidades demoraram a surgir, mas trabalhei muito meu lado mental para enfrentar essas adversidades e estar pronto quando a oportunidade aparecesse. Sempre me dedicando ao máximo nos treinos. Tive até chances com o Barbieri e com o William, mas a sequência com o Ramón foi muito importante e foi o que fez eu mostrar meu futebol em campo.
Estilo de trabalho de Ramón Díaz
Ele transmitiu muita confiança para toda a equipe. Vínhamos de momentos difíceis e com ele tivemos uma virada. Ele cobrou bastante, pois sabia que poderíamos evoluir bastante, mas também transmitiu confiança. Fiquei alguns jogos sem atuar após a chegada dele, mas ele me deu confiança, conversava e, quando me deu a oportunidade, me deixou tranquilo para jogar. Foi me passando mais confiança para ajudar o Vasco. Foi muito importante para mim.
Como era o ambiente no vestiário com Ramón após os jogos?
Mesmo quando vencíamos e comemorávamos no vestiário, ele dizia para não nos acomodarmos, pois sabia que o caminho era árduo e que havia muitos jogos pela frente. Ele elogiava, mas também falava: “Não se acomodem”. No dia seguinte, ele reforçava nos treinos. Isso marcou muito. Ele não nos deixava entrar na zona de conforto.
Expectativas para 2024
Houve a mudança na diretoria agora, já havíamos tido uma conversa anteriormente. Mas estou tranquilo, houve contatos de clubes do Brasil e do exterior. Vamos esperar o Vasco se reorganizar, será feito o que for melhor para ambas as partes no final.
O Vasco tem todas as condições para se destacar. Foi um ano complicado, mas acredito que o Vasco vai retornar forte e voltar a brigar na parte de cima, que é onde ele merece estar. A camisa do Vasco tem muito peso.
Qual foi a sensação após a assistência no gol que garantiu o Vasco na Série A em 2024?
Foi um momento muito especial. Estávamos com a vitória garantida, mas acabamos sofrendo o gol e o tempo passava, gerando tensão e nervosismo. Ao mesmo tempo, eu estava com o coração tranquilo, minha esposa até disse depois que sabia que algo ia acontecer. Não imaginava que seria tão especial como foi. Fiquei muito feliz por fazer a jogada e a assistência, também feliz pelo Serginho, pois ele merece. Foi um alívio imenso, nem tive forças para correr e comemorar, só ajoelhei na hora. Depois, apenas queria que o jogo terminasse; cumprimos nosso papel.
O que Ramón disse após o jogo contra o Bragantino?
Ele nos parabenizou, ao chegar disse que o Vasco não cairia e todos acreditaram no processo, abraçaram e se comprometeram a fazer de tudo por isso. Todos comemoraram, vimos a alegria nos rostos de todos, funcionários, comissão, atletas. Foi um momento incrível.
Possibilidade de atuar mais à frente
A velocidade é uma característica minha desde sempre, me acompanha desde pequeno. Já atuei no ataque algumas vezes, principalmente pelo Juventude. No começo é um pouco estranho, mas fui me adaptando e consegui desempenhar bem a função. Mas também tenho características defensivas, por isso a preferência é atuar na defesa. No entanto, estou apto a desempenhar o que o treinador precisar.
Identificação com o Vasco
Desde a primeira semana me senti em casa, fui acolhido por todos, me identifiquei muito. A torcida me abraçou, ouvir meu nome ser gritado em São Januário foi muito especial. Desenvolvi um grande carinho, tenho vários itens do Vasco em casa, foi um ano em que fui muito feliz. Quem está de fora sabe que o Vasco é um clube gigante, com muita história, luta contra o racismo…
Mas quando você vive o Vasco diariamente, percebe que vai além disso, que é muito maior. Não conseguimos dimensionar o tamanho, mas é possível mensurar um pouco dessa grandiosidade. Depois de vestir a camisa do Vasco, não tem como sair daqui sem ser um pouco vascaíno.
Acredita que Payet poderá contribuir mais para o clube no próximo ano?
É uma pessoa excepcional. Ele é até meio brasileiro, brinca, zoa, ri. No início teve um pouco de dificuldade com a língua, mas foi aprendendo, se soltando. Nos treinos, quando ele marca o mano a mano, é quase impossível de parar, craque. Trata todos de maneira igual. Este ano foi de adaptação, estava um tempo sem jogar, mas foi pegando o ritmo e tem tudo para ajudar o Vasco no próximo ano e proporcionar muitas alegrias aos torcedores.
Caneleira personalizada com fotos da esposa
Minha família é minha base. Fiz dois pares, um para levar nos jogos e outro para deixar em casa, exposto junto com meus troféus e camisas. Minha esposa foi minha base, ajudou a impulsionar minha carreira. Ela é muito importante, e a caneleira é um símbolo disso.
Coleção de camisas
Conforme os jogos vão passando, quando a adrenalina baixa um pouco, pegamos as camisas, principalmente as dos amigos. E tem de jogadores como o Lucas, do São Paulo, por exemplo. Pela história que ele tem, pedi e ele cedeu com toda humildade. São as lembranças que permanecem após encerrarmos a carreira.
Fonte: ge