O Vitória, mesmo com recursos limitados, conseguiu retornar à Série A do Campeonato Brasileiro. O atual presidente, Fábio Mota, reorganizou o clube em dois anos de gestão e se recusa a transformá-lo em uma Sociedade Anônima do Futebol. Ele argumenta que não entregará a instituição de 124 anos a empresários que visam apenas o lucro. O dirigente critica não a Lei da SAF em si, mas os modelos de SAF adotados no Brasil, que assumiram o controle de grandes clubes.
O presidente do Vitória critica o fato de que os investidores utilizam os clubes apenas como fonte de lucro, sem levar em consideração o desempenho esportivo. Fábio Mota exemplifica com os times ameaçados de rebaixamento na atual edição da Série A: Vasco, Bahia, Cruzeiro, Coritiba e América. Destes, apenas o América não possui um investidor por trás.
“Os modelos de SAF adotados no Brasil priorizam o investidor. Nenhum deles está preocupado com o aspecto esportivo, com o desempenho esportivo. Eles se preocupam em adquirir clubes brasileiros para explorá-los. Trarão vários jogadores inexperientes, os farão jogar e, em seguida, os venderão para obter lucro”, afirmou.
“Se observarmos os seis últimos clubes na Série A atual, todos adotaram o modelo de SAF. O investidor chega, compra por um preço baixo, parcelado em dez ou vinte anos, põe jogadores jovens que estão na Europa para ganhar experiência. Antigamente, eles faziam isso em Portugal e, com a crise do mercado brasileiro, migraram para o Brasil. Eu não quero esse modelo de SAF que estão adotando por aí”, argumentou.
Presidente rejeitou propostas em 2022, durante a Série C
O Vitória, com sua tradição na formação de talentos e uma ampla base de torcedores (3,5 milhões), começou a receber propostas de investidores quando ainda disputava a Série C em 2022. Fábio Mota recusou as ofertas, optando por manter o clube como uma associação. Sua decisão provou-se acertada, resultando em dois acessos consecutivos. O clube terminou em quarto lugar na Série C do ano passado e conquistou o título da atual Série B com duas rodadas de antecedência.
“O Vitória nunca teve interesse. Busquei outras alternativas e mostrei que não era necessário ‘vender a alma’ para sair de uma situação difícil e chegar ao topo. Não vendemos a alma, não vendemos o clube. Estabelecemos uma gestão profissional, com dedicação e equipe comprometida em resgatar o clube, e obtivemos sucesso sem precisar abrir mão dele”, enfatizou.
“Não sou contra a SAF, sou contra o modelo de SAF adotado no Brasil. Aqueles que optaram pela SAF no Brasil o fizeram por estarem em situações difíceis. Era uma questão de sobrevivência. Vasco, Botafogo, Cruzeiro, entre outros, tomaram essa decisão. Mas não era o caso do Vitória, não é verdade? Desde que assumi o Vitória, há dois anos e um mês, tenho recebido propostas, mas sempre foram ofertas insignificantes e eu nunca aceitei ouvir. O clube estava desvalorizado na Série C. Isso era interessante para o investidor. Ele poderia investir R$ 200 milhões, adquirir uma instituição centenária, com 500 mil m² em Salvador, 11 campos de futebol, centro de treinamento e categorias de base do sub-9 ao sub-20, e conseguir lucro. Eu alcancei o acesso sem dinheiro, então imagine se tivesse investimento. Teria conquistado a vaga na Série A e o valor do Vitória teria quintuplicado”, ironizou o presidente Fábio Mota.
Atualmente, o Vitória só considerará a possibilidade de uma SAF se o clube mantiver o controle majoritário, com 51% das ações. Dentre os clubes brasileiros que se tornaram Sociedade Anônima do Futebol, nenhum conseguiu manter o controle. Os investidores dominam o clube e até mesmo o patrimônio imobiliário.
“Eu defendo a SAF na qual a associação detenha 51% das ações, ou seja, a maioria. É assim na Europa, na Alemanha, na Inglaterra. O modelo que defendo é: o Vitória precisa de um sócio que detenha até 49% das ações, faça parceria com o clube, mas a instituição mantenha o controle sobre o futebol e o patrimônio, e leve o sócio para uma parceria. Se precisar de auditoria, que seja realizada. Mas é crucial que mantenhamos o controle disso tudo”, defendeu o presidente.
Torcedores terão voz ativa
No próximo ano, o presidente pretende discutir um modelo viável de SAF com os sócios-torcedores e a torcida do Vitória. Nada será decidido sem a participação daqueles que apoiaram o clube nos momentos mais difíceis de sua história.
“Estamos abertos para dialogar e debater. Acredito que é necessário aprovarmos nosso modelo. Vamos iniciar essa discussão no ano que vem com os torcedores e os sócios, para então pensarmos no modelo que desejamos adotar”, acrescentou o presidente, campeão da Série B.
Para 2024, a ambição do Vitória não é se tornar uma SAF. O objetivo é permanecer na elite do futebol nacional e conquistar uma vaga na Copa Sul-Americana. “Nosso planejamento é não apenas permanecer na Série A, mas também garantir a classificação para a Sul-Americana. Acredito que um clube nordestino pode ser campeão da Sul-Americana. Até hoje, nenhum time nordestino conquistou um título internacional. É isso que vamos almejar enquanto eu estiver na presidência, até o final de 2025”, concluiu Mota.
O Vitória conquistou o título da Série B com uma folha salarial de R$ 2,5 milhões. Para o próximo ano, na Série A, o clube estima elevá-la para um valor entre R$ 5 milhões e R$ 8 milhões.
Fonte: Itatiaia