Recentemente, Salgado divulgou um extenso manifesto – disponível em suas redes sociais – no qual defende a negociação com a 777, realizada em 2022, no segundo ano de sua gestão. Ele criticou a atuação de Pedrinho e seus aliados no confronto com o investidor e revelou que a 777 foi a única empresa que “aceitou os termos iniciais, avançou nas tratativas e fez uma oferta concreta”.
Já o ex-presidente Alexandre Campello, alvo de outra discussão na reunião futura, afirmou que “não está a par dos fatos e, por ora, não possui declarações a fazer”.
Em uma entrevista anterior ao ge, Salgado mencionou que uma apresentação do Vasco foi enviada para 62 investidores estrangeiros, resultando em 27 respostas. Desses, apenas três entraram em negociação com o clube, incluindo o grupo City, que demonstrou interesse em uma participação minoritária, mas considerou o investimento no Vasco como elevado.
No comunicado nas redes sociais, Salgado ressaltou que o Vasco não despertou interesse de outros investidores, os quais não compreendiam a exclusão do estádio de São Januário do projeto. Além disso, alguns não desejavam alocar recursos na fase pré-SAF, especialmente diante dos expressivos montantes a serem investidos na empresa e da absorção das dívidas do clube.
– Os termos iniciais da negociação foram estabelecidos desde o início, respeitando as características do Vasco: (i) investimento substancial do investidor (R$ 700 milhões) em até 4 anos, para viabilizar a retomada da competitividade esportiva; (ii) assunção, pela SAF, da dívida histórica do CRVG (até R$ 700 milhões), para equilibrar o passivo acumulado que sufocava o clube há duas décadas; (iii) manutenção de significativa participação do CRVG na SAF (30%); (iv) preservação da propriedade de São Januário pelo CRVG, que deveria ser utilizado pela SAF; (v) investimentos expressivos em infraestrutura, sobretudo nos CTs; (vi) destinação de considerável orçamento ao futebol, visando restabelecer a competitividade vascaína; e (vii) a Vasco SAF se tornaria um destaque do grupo investidor, devendo ser tratada condizentemente com a grandiosidade histórica do clube. Iniciado o processo e após diálogos com potenciais investidores, a 777 foi a única que aceitou as condições iniciais, avançou nas tratativas e apresentou uma oferta concreta – declarou Jorge Salgado.
“Recebi apenas 23% do montante do empréstimo”
O ex-presidente também justificou o acordo ao mencionar a “guerra política interna que mina o clube, prejudica sua imagem e impede o desenvolvimento de sua vasta torcida e o alcance de seu inegável potencial”. Ele ainda abordou um dos empréstimos concedidos ao clube no início de sua gestão, questionando se havia criado a SAF no Vasco para se ressarcir.
Salgado lembrou que em 2021 emprestou ao clube um valor substancial a juros inferiores aos praticados pelo mercado – de acordo com o balanço de 2021, esses valores totalizaram cerca de R$ 26 milhões. Ele enfatizou que “foi o único disposto a emprestar recursos ao clube” em um momento de salários atrasados.
Após receber parcelas atrasadas do acordo como credor em março de 2022, com o empréstimo-ponte da 777 de R$ 70 milhões, Salgado mencionou que, pouco tempo depois, diante de um bloqueio de dívida envolvendo Maxi Lopez, ele “restituiu integralmente o montante das parcelas atrasadas que havia recebido”.
– Com a resolução do problema de fluxo de caixa, o valor foi devolvido. Até o momento, recebi apenas 23% do total do empréstimo, sendo que o prazo original de vencimento já expirou e o empréstimo deveria ter sido quitado. Meu empréstimo foi aprovado pelo Conselho Deliberativo, incluindo as condições de pagamento. Na reunião de aprovação, todos elogiaram e agradeceram o apoio ao clube em um momento delicado. Poucas semanas depois, já me chamavam novamente de agiota – afirmou Salgado.
Salgado: contestação judicial decorre de “interpretação equivocada”
O ex-presidente questionou a estratégia jurídica da gestão de Pedrinho, que ingressou com um processo judicial obtendo liminar para remover a 777 do controle da Vasco SAF – o caso segue em análise na Vara Empresarial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e também será debatido em arbitragem na FGV.
Ele argumentou que a justificativa do jurídico de Pedrinho – “evitar a penhora das ações da SAF detidas pela 777” – “decorre de uma interpretação equivocada”. Salgado explicou que, em caso de inadimplência, as ações já adquiridas pela 777 (correspondentes a 31% do total de 100%, dos quais 30% permanecem com o Vasco conforme o acordo de acionistas) não retornariam ao clube. Porém, o Vasco teria o direito de exercer uma opção de subscrição, mediante o pagamento simbólico de R$ 1 mil, obrigando a SAF a emitir novas ações para diluir a participação da 777 ao montante efetivamente desembolsado pelo investidor.
– Neste cenário, como a 777 já desembolsou R$ 310 milhões (equivalente a 31% da participação de 70% acordada com o investidor), eles seriam diluídos em 31% após a emissão das novas ações da SAF subscritas pelo CRVG – o que passaria a deter 69% de participação na SAF e, consequentemente, retomaria o controle da empresa – explicou o ex-presidente, acrescentando:
– O eventual penhor das ações da SAF por parte de um credor não teria impacto significativo, uma vez que o credor teria que realizar o aporte em setembro de 2024 – caso contrário, as ações penhoradas seriam diluídas para 31% de participação no capital social da SAF. Além disso, esse suposto credor teria que cumprir todas as obrigações e proteções à SAF e ao CRVG previstas no acordo de acionistas e no estatuto social da SAF, incluindo as cláusulas qualificadas que requerem a aprovação do CRVG.
O ex-dirigente do Vasco sustenta que esse desfecho representa a retomada “legítima do controle da SAF”, conforme acordado entre as partes no contrato, possibilitando aos vascaínos buscar um novo investidor e compelir a 777 a vender seus remanescentes 31% sob as mesmas condições negociadas entre o CRVG e o novo investidor.
– Vale ressaltar que o mecanismo de opção de subscrição foi elucidado no parecer da Comissão Especial do Conselho Deliberativo, a qual analisou a operação da SAF e recomendou sua aprovação. Muitos membros daquela comissão estão presentes na gestão atual – ressaltou Salgado, reforçando que a negociação foi respaldada pelo Conselho Fiscal e pelo Conselho Deliberativo do clube.
“Sou eternamente credor do Vasco”, afirma Jorge Salgado
– A meu ver, antes de o CRVG ingressar com a ação judicial, a 777 já negociava a venda de sua participação na SAF. Nessa hipótese, como requisito para a transferência das ações, o novo acionista teria que desembolsar não apenas o aporte de 2024 (cerca de R$ 300 milhões, atualizado), mas também o de 2025 (aproximadamente R$ 130 milhões, atualizado). Caso contrário, não poderia receber as ações da SAF e tornar-se acionista. Seriam R$ 430 milhões no caixa da SAF de uma só vez. A opção pela disputa judicial é preocupante, pois, além de ensejar o não pagamento do aporte de setembro de 2024 (se a situação persistir até lá), gera um clima de instabilidade institucional e insegurança jurídica, repelindo possíveis novos investidores – observou Salgado.
Quanto às condições financeiras da 777 no momento do acordo, Salgado baseia-se no relatório – confidencial e não divulgado publicamente, mas analisado por uma comissão de 15 conselheiros, com dois se abstendo, conforme reportagem do ge na semana anterior – das consultorias contratadas.
Salgado enfatiza que “não houve observações relevantes”, cita o parecer favorável à transação da Comissão Especial do Conselho Deliberativo e afirma que a 777 “passou pelo escrutínio de todas essas jurisdições, sem grandes problemas”, incluindo Itália, Alemanha, França, Bélgica e Austrália, além de seu envolvimento em clubes da Espanha e na liga de basquete da Inglaterra. Ele interpreta que “os desafios surgiram após a conclusão do negócio com o Vasco, quando a 777 decidiu investir no Everton”. Isso ocorreu devido à não obtenção do acesso à liga de maior prestígio e custo no mundo.
– Para concluir o negócio e ingressar nesse mercado, eles contrairam empréstimos superiores a R$ 1,3 bilhão (200 milhões de libras esterlinas) para cobrir despesas operacionais e compromissos financeiros do clube, antes de finalizar a operação – afirmou Jorge Salgado.
“Disponibilizem os contratos publicamente”, demanda Jorge Salgado
Na carta divulgada, Jorge Salgado ressalta que a liminar revoga os efeitos do contrato e faz um “apelo pessoal” para que os contratos sigilosos sejam disponibilizados.
– Pessoalmente, não me oponho. Seria até benéfico para acabar de vez com essas narrativas difamatórias e políticas. O sigilo é uma condição típica não apenas em contratos de fusões e aquisições, mas em contratos comerciais em geral. Ele visa preservar as estratégias comerciais das partes. Por exemplo, os clubes não divulgam contratos com patrocinadores ou contratos de direitos de transmissão – disse Salgado, desafiando a diretoria de Pedrinho a tornar públicos os contratos celebrados em sua gestão anterior.
– A decisão liminar que retirou o controle da SAF da 777 anulou os efeitos dos contratos. Com isso, também anulou a exigência de confidencialidade. Em rigor, o CRVG poderia publicar os contratos na íntegra. Por que o CRVG não os torna públicos, já que não estão mais sujeitos à cláusula de sigilo? Se acreditam não gerar insegurança em potenciais novos investidores, aqui está meu pedido pessoal: divulguem os contratos! – exclamou o presidente na carta.
Salgado também assegurou que nem ele nem nenhum membro de sua gestão receberam “qualquer tipo de comissão ou remuneração pela negociação”. Ele recordou que houve comissões de R$ 28 milhões para empresas de consultoria e advocacia – conforme relatado anteriormente ao ge – que auxiliaram na condução do negócio, mas com pagamentos além dos R$ 700 milhões investidos no clube. Ou seja, de acordo com Salgado, o acordo totalizou R$ 728 milhões. “A relação dessas empresas consta em um dos anexos do contrato de investimentos. Não foi efetuado pagamento adicional, comissão ou remuneração a qualquer outra pessoa ou empresa que não esteja listada. O Conselho Fiscal do clube tem acesso a essa relação e aos valores devidos”.
Salgado ainda criticou a gestão da 777 no futebol do clube, apontando falta de “habilidade” no cenário esportivo, “conhecimento do mercado interno” e “assertividade no processo de contratação” – fazendo menção à formação de um time jovem em 2023 em meio a pressões intensas no Vasco. No entanto, reconheceu que “eles aportaram R$ 310 milhões, investiram no futebol, aumentaram as receitas comerciais, pagaram salários em dia e cumpriram pagamentos devidos, como os do RCE Trabalhista, RCE Cível e transação tributária”.
Fonte: ge