A derrota expressiva no último final de semana não foi um acaso.
Por Roberto Monteiro*
o Vasco atravessa uma situação crítica, semelhante a uma tragédia grega, na qual o Clube é golpeado a cada ato do drama. O desfecho mais recente foi a goleada histórica para nosso arquirrival.
É fundamental que associados e torcedores compreendam o que está se desenrolando e evitem repetir expressões prontas, incluindo a frase: “o Vasco está em crise há 20 anos”, uma afirmação parcial que encobre uma mentira de grandes proporções.
Passar por longos períodos de dificuldades esportivas e financeiras (algo comum a todos os grandes clubes) é totalmente diferente, em uma escala infinitamente maior, de perder a identidade e a essência, o que é exatamente o que está acontecendo, se tornando um prenúncio da extinção.
A gestão liderada pelo ex-presidente Jorge Salgado tomou as rédeas do poder vascaíno em 2021, assegurando não apenas que o Vasco era plenamente viável, mas também garantindo que soluções financeiras estavam em andamento para viabilizar um futuro de conquistas e sucessos no futebol e em outras modalidades esportivas.
Na verdade, o grupo político de Jorge Salgado estava à frente das finanças do Vasco desde maio/junho de 2018, quando se integrou à gestão do então presidente Alexandre Campello, sempre com a mesma promessa de “reestruturação financeira” e projeções de um amanhã melhor.
Quando Salgado assumiu a presidência em 2021, tomei a dianteira, ou pelo menos um dos primeiros colocados, em soar o alarme e, portanto, desmascarar a farsa: “o plano de Salgado e seu grupo é vender o Vasco”, proclamei naquela ocasião.
Por isso, mas sob pretextos falsos, a primeira medida adotada pela gestão de Jorge Salgado foi propor minha exclusão do clube, o que inicialmente ele obteve êxito, por meio de um Conselho Deliberativo completamente controlado por seu grupo, porém, posteriormente a expulsão injustificada foi anulada pela justiça.
A administração Salgado foi, sem dúvidas, a mais nefasta em 126 anos de CRVG. Desmantelou as operações administrativas do São Januário, afastando o Clube de suas raízes na Barreira, encerrou quase todas as atividades esportivas amadoras, demitiu mais de 140 funcionários em meio à pandemia sem quitar quaisquer direitos trabalhistas, formou uma equipe que terminou em 10º lugar na série B, marcando a primeira vez que o Vasco não retornou à série A após o rebaixamento, e por fim, negociou o clube por um valor ínfimo.
Atualmente, está ficando cada vez mais evidente o quão impactante foi a venda do setor de futebol do Vasco para a 777 Partners.
Nenhum outro clube no Brasil comercializou seu futebol por meio de um contrato sigiloso e é provável que tal ato tenha sido inédito globalmente.
Afinal, não se negocia nem uma bicicleta sem conhecer os termos da transação, mas houve quem concordou em alienar o futebol vascaíno dessa forma, ao mesmo tempo em que proclamava um suposto amor pelo Vasco. Parece que valorizam mais suas magrelas.
Obviamente, não estou me referindo ao sócio ou ao torcedor comum, que foram iludidos e enganados pelo discurso, hoje desmascarado, da “Vasco milionário”. Meu foco são os líderes políticos (diretores e conselheiros) que tinham pleno conhecimento do que estavam fazendo.
Para ter uma ideia de como essa transação foi um verdadeiro ultraje ao Vasco, um vazamento de parte do contrato confidencial mostrou que toda a base do futebol foi adquirida por R$ 44 milhões, porém em pouco tempo a 777 Partners vende Andrey, uma promessa formada pelo Clube, por R$ 153 milhões. Muitos outros detalhes obscuros poderiam ser citados aqui, porém, o espaço é limitado.
As advertências feitas contra a negociação foram ignoradas ou repudiadas por uma esmagadora enxurrada midiática.
E a 777 Partners, que de acordo com Jorge Salgado e sua equipe, era robusta e próspera, entra em uma fase pré-falimentar menos de dois anos após a aquisição do setor de futebol do Vasco, colocando em risco a própria existência do Clube.
Diante disso, surge uma indagação natural: aqueles que venderam o futebol vascaíno estavam defendendo os interesses do clube ou outros interesses?
Até mesmo para proteger a reputação daqueles que lideraram a venda do futebol, seria vital que o contrato fosse disponibilizado para a avaliação dos sócios e torcedores, incluindo a divulgação dos beneficiados pelos quase 30 milhões de reais de comissão pela negociação.
O desfecho da comercialização do futebol vascaíno? As principais revelações das categorias de base foram prontamente negociadas e uma sequência de fiascos em campo.
A negociação da equipe para uma companhia duvidosa, o rebaixamento para a segunda divisão e a permanência nela, a eliminação precoce do campeonato carioca sofrendo nas mãos de equipes mais modestas e a humilhação perpetrada pelo nosso maior rival, foram desastres ocorridos nos últimos quatro anos, e não “nos últimos 20 anos”.
Não situar corretamente os fatos em sua devida linha temporal é querer encobrir responsabilidades. Os culpados pelas calamidades têm seus nomes conhecidos.
Por isso, me surpreendo com os “protestos da torcida” que alvejam os funcionários e silenciam sobre os verdadeiros responsáveis. São silêncios que não carregam inocência alguma.
O atual presidente do Vasco, Pedro Paulo de Oliveira (conhecido como Pedrinho em seus tempos de atleta), respaldou integralmente a venda do futebol e foi o candidato de Jorge Salgado à sucessão, porém, agora toma a medida acertada de buscar afastar a 777 Partners do controle, o que, temporariamente, teve êxito, para nossa satisfação.
Contudo, apenas afastar a 777 Partners não é o bastante. É imperativo resgatar o verdadeiro espírito cruzmaltino, atualmente manchado e aviltado, e para alcançar esse objetivo, o Vasco precisa passar por uma reavaliação minuciosa.
Foi com determinação e bravura que os vascaínos, ao longo de nossa longa trajetória, defenderam a reputação e a integridade do clube, valores inestimáveis.
No entanto, a coragem não se empresta e a luta não é uma responsabilidade transferível.
Associados inertes e torcida apática não conseguirão resgatar o Vasco de seu declínio.
A hora em que associados e torcedores devem despertar para o fato de que um projeto de demolir o Vasco está em andamento já passou há muito tempo.
É fundamental que a mobilização e a união dos autênticos vascaínos se concretizem para frear esse desmantelamento.
Essa colaboração e mobilização dos vascaínos não implicam em incitar a violência ou depredações, mas sim em um constante e massivo clamor, dentro e fora dos estádios, exigindo:
1 – Que o Vasco não seja revendido;
2 – Que os gestores eleitos de fato assumam compromissos com a grandeza do clube ou renunciem coletivamente aos seus cargos;
3 – A expulsão daqueles que possivelmente cometeram crimes contra o Vasco, investigados por agentes externos ao processo de venda e garantindo amplo direito de defesa.
Estou convencido de que ou os sócios e torcedores trilham esse caminho ou enfrentaremos dias ainda mais desafiadores.
Um dos instrumentos para essa luta pode ser o Movimento Vasco do Povo (MVP), que tem como presidente de honra o renomado Martinho da Vila.
Não adianta ostentar o título de “torcida mais fiel” se nossos cânticos forem utilizados somente para embalar a marcha fúnebre do Clube.
Que os espíritos combativos de pioneiros como Cândido José de Araújo, José Augusto Prestes e Cyro Aranha inspirem os vascaínos a compreenderem que o amor sem ação é apenas uma declaração vazia.
* Advogado – Sócio Benemérito do Club de Regatas Vasco da Gama
Fonte: Pega na Geral