Originário da Vila Aliança, uma comunidade localizada no bairro de Bangu, no subúrbio do Rio de Janeiro, Andrey Santos é um desses jovens que almeja realizar seus sonhos. Apesar de uma infância desafiadora, marcada por uma luta contra “más influências”, ele conseguiu alcançar o sonho de se tornar um atleta profissional, sempre com o suporte fundamental de sua família.
Atualmente, prestes a completar 21 anos, o jogador de meio-campo sente orgulho de suas raízes e está em busca de novos objetivos.
“A minha infância foi um pouco complicada, como muitos jogadores que vêm de comunidades, especialmente da Vila Aliança. Sabemos que é desafiador sair desse ambiente, mas fico contente em ver tantos jovens de lá jogando futebol, mostrando que existem lados positivos na comunidade”, disse ele em uma entrevista para a ESPN.
Sua trajetória no futebol começou no Bangu, um clube tradicional do subúrbio carioca, onde uniu a paixão pelo esporte a uma necessidade de cuidar da saúde devido ao seu biotipo.
“Eu sempre sonhei em ser jogador. Minha mãe costumava contar que, quando era pequeno, não tinha interesse em brinquedos, apenas em jogar bola. Meu pai me levava para soltar pipa e andar de bicicleta, mas o meu foco sempre era a bola. Ele ficava frustrado, mas eu só queria jogar (risos). E assim se concretizou o sonho”, lembrou.
“Comecei no Bangu ainda criança, primeiramente para emagrecer, já que era um pouco ‘gordinho’. Inicialmente, era só uma brincadeira, mas aos poucos, meu sonho se intensificou. Sou muito grato a Deus e aos meus pais, além de todos que acreditaram em mim”.
‘Sou eternamente grato ao clube que me formou’
Após suas experiências nas categorias de base do Bangu, Andrey foi para o Vasco aos sete anos, em 2011. Assim como grandes nomes do futebol, como Philippe Coutinho e Douglas Luiz, ele também se formou como “cidadão” na escola do Vasco que fica dentro do Complexo de São Januário.
“Completei toda a base no Vasco, estudei lá e sou imensamente grato ao clube que me formou, pois me ofereceu alimentação, educação e me moldou como pessoa”, afirmou.
Foi no Gigante da Colina que Andrey fez sua estreia profissional em 2021, em uma partida contra o Volta Redonda, pelo Campeonato Carioca. No ano seguinte, ele desempenhou um papel essencial na volta do clube à elite do futebol brasileiro, destacando-se com oito gols, mesmo sendo um jogador de meio-campo.
“Sou eternamente grato ao Vasco, onde fiz minha estreia e ajudei a equipe a retornar à Série A. Depois segui meu caminho”.
O estilo de jogo de Andrey é ofensivo para sua posição e tem uma fonte de inspiração: Paulinho, que foi campeão da CONMEBOL Libertadores e do Mundial de Clubes com o Corinthians. De acordo com Andrey, o veterano já era conhecido como “box-to-box” antes mesmo do termo se popularizar.
“É difícil de explicar, mas isso já faz parte do meu jogo desde a base, chegar na área e marcar gols. Sempre gostei de fazer gols, prefiro do que dar assistências (risos). Quando era mais novo, assistia muitos jogos e meu pai sempre me dizia para prestar atenção no Paulinho. Ele dizia que eu era parecido com ele, um jogador agressivo, sempre presente na área. Depois que ouvi isso, passei a observar mais ainda e, na base, adotei essa tática”, relembrou.
“Nunca tive a chance de comentar isso diretamente com o Paulinho, e acredito que ficaria tímido para fazer isso (risos)”, revelou.
‘Precisamos passar por processos para amadurecer’
Após ajudar o Vasco a conquistar o acesso, Andrey foi negociado com o Chelsea no início de 2023 por 18 milhões de libras (cerca de R$114 milhões na época).
Inicialmente, ele não pôde ser inscrito no clube por questões burocráticas. Dessa forma, foi emprestado de volta ao Vasco até que estivesse em conformidade para jogar na Premier League.
Embora não tenha permanecido no Chelsea para a temporada 2023/24, ele foi emprestado ao Nottingham Forest. Contudo, a experiência foi desafiadora.
“Não entendia porque não estava jogando, treinei bem e me destaquei nas atividades. O treinador (Steve Cooper) conversou comigo, elogiou meu desempenho, mas em determinado momento confessou que não poderia me escalar por questões contratuais. Foi uma fase difícil, mas aprendi muito”, contou.
“Foi um processo complicado em seis meses, mas às vezes a gente precisa passar por esses momentos para amadurecer. Isso é comum para qualquer jovem que sai do Brasil para a Europa, especialmente na Inglaterra, onde o futebol é mais exigente; você precisa ter resiliência e maturidade para enfrentar essas situações”.
“Eu tinha plena noção de que seria desafiador na Europa, tal como aconteceu com o Vinícius Júnior, Rodrygo e outros que não chegaram fazendo sucesso imediato. Eu conversava muito com o Sávio, que é meu amigo e já havia passado por esses desafios. Ele sempre me dizia para manter a resiliência e continuar trabalhando duro. Fico feliz por ter conseguido superar essas dificuldades. Recentemente, entrei em contato com o Luís Guilherme, que atualmente está com o West Ham e passando por uma situação semelhante, e o incentivei a continuar firme”.
‘Meu estafe foi a chave do sucesso’
Depois de superar as dificuldades no Nottingham, Andrey teve uma nova oportunidade e foi emprestado ao Strasbourg, um clube francês que também pertence ao grupo que gere o Chelsea.
Desde então, ele vive um momento excepcional em sua carreira. Em 37 jogos, o meio-campista já balançou as redes 10 vezes e deu duas assistências, o que chamou a atenção da seleção brasileira. Em 2023, ele foi escolhido para a pré-lista de convocados pelo treinador Dorival Júnior.
Parte do seu sucesso pode ser atribuída à sua equipe de apoio, que o acompanha onde quer que vá, incluindo um fisioterapeuta e até um chef de cozinha.
“O grande segredo foi a equipe que formei. Ao montá-la para me acompanhar, tudo mudou. Agora, me sinto mais confiante e preparado para jogar. Percebi que cuidar do meu corpo, da alimentação e do sono é fundamental. Depois que ajustei minha mentalidade, evoluí muito em campo”, disse.
“No momento, tenho duas pessoas comigo: um fisioterapeuta e o chef, além de um nutricionista que me assessora. Assim que eles chegaram, meu desempenho melhorou significativamente, não apenas nos jogos, mas também nos treinos. Apesar do cansaço, sinto que são resultados que valem a pena”, avaliou.
Andrey se vê como um atleta “diferente” daquele que deixou o Brasil há três anos. Essa evolução é evidente em sua maturidade e compreensão do jogo.
“Minha maturidade e a compreensão do jogo mudaram bastante. Chegar do Brasil para cá é um choque: a intensidade e a força dos europeus são distintas. A qualidade do futebol brasileiro é semelhante em alguns aspectos, mas no que diz respeito à intensidade e força, a diferença é notável. Aprendi muito sobre isso”, observou.
Com um contrato com o Chelsea que se estende até 2030, Andrey ainda tem um futuro incerto para a próxima temporada. Contudo, conforme revelou à ESPN, ele tomará decisões ao término de sua atual campanha no Strasbourg.
Fonte: ESPN